A ajuda que vem da escola

Verônica Mambrini

Cada vez mais cedo, colégios apostam em novas técnicas de orientação vocacional para auxiliar seus alunos.

Com os vestibulares das principais faculdades do País se aproximando, os estudantes se concentram na rotina de simulados e revisões. Mas, diante de duas centenas de possibilidades de cursos e profissões, boa parte dos que estão se preparando nem sequer sabe qual carreira seguir. De acordo com uma pesquisa do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), 62% dos jovens estão em dúvida sobre qual faculdade escolher. De olho nas mudanças nos vestibulares e no mercado de trabalho, escolas, cursinhos e institutos de orientação vocacional oferecem atualmente um verdadeiro arsenal para ajudar o aluno.

Nos colégios, a escolha da profissão está entrando em pauta desde o começo do ensino médio. “O primeiro ano é um momento importante para parar e refletir”, afirma o coordenador pedagógico do Colégio Santo Américo, Miguel Augusto Arruda. Nessa série, o tema entra na grade semanal dos alunos, focado no autoconhecimento. A ideia é traçar um perfil das habilidades e personalidade do estudante, além de esboçar um projeto de vida do qual a profissão fará parte. No segundo ano, há uma temporada de orientação vocacional em grupo e no último o colégio promove uma jornada de palestras com profissionais do mercado. Há também uma semana de estágios, em que os jovens podem conhecer o ambiente de trabalho de pais dos outros alunos. Mesmo assim, há estudantes que chegam ao último ano em dúvida.

“Estou em dúvida. Meu problema é gostar de muitas coisas”
Layla Saleiros

É o caso de Lucas Vezzuli, 17 anos, do 3º ano do ensino médio do Santo Américo. O adolescente reduziu o leque de opções depois da orientação profissional, mas ainda não se decidiu entre jornalismo e publicidade. O jovem pretende cursar administração como segundo curso. “O palestrante de jornalismo comentou que era bom ter duas faculdades”, explica Lucas.

A dificuldade em escolher é agravada pelo contexto em que a escolha profissional acontece no Brasil. Todos os anos há uma safra de novos cursos, as carreiras estão cada vez mais específicas e os candidatos são muito jovens. Por isso, informação é fundamental. Até os cursinhos pré-vestibular entraram na onda da orientação profissional. Em São Paulo, o Etapa organiza suas próprias feiras de profissões, em que faculdades levam universitários para esclarecer questões dos vestibulandos. “A gente sabe que muitos alunos chegam com dúvidas. Acaba sendo um suporte a mais à formação”, diz Emilio Paniguchi, coordenador do Etapa.

O Colégio Santa Maria, de São Paulo, aposta em uma série de ações para dar uma dimensão mais realista do mercado. “Nosso trabalho é para diminuir o risco de errar. Muitas vezes, o aluno tem acesso à informação, mas não consegue digerir”, afirma Silvio Freire, coordenador do ensino médio. As ações são divididas ao longo dos três anos do ensino médio, e vão do autoconhecimento a debates com profissionais do mercado. Aos 16 anos, Layla Bonfim Saleiros, do Colégio Santa Maria, está no 3º ano e se prepara para prestar vestibular fazendo cursinho. Ela só não sabe ainda para quê. “Estou super em dúvida”, diz Layla. “Já pensei em psicologia, medicina, enfermagem, letras, carreiras que não têm nada a ver uma com a outra.

Meu problema é que eu gosto de muitas coisas”, diz. A adolescente participou de várias atividades de orientação vocacional propostas pelo colégio, e sabe que, se não conseguir decidir, vai ter apoio em casa para ir com calma. “Meus pais sabem quanto eu estou indecisa, e que pressionar seria pior para mim.”

A orientação vocacional de hoje tem pouco em comum com os testes de décadas atrás, nos quais se preenchia um longo questionário que desembocava em humanas, exatas ou biomédicas. “A própria psicologia se atualizou e viu que essa quantidade infinita de testes não fala de um fato real, que é o jovem indeciso”, afirma Stella Sampaio Leite, do instituto Colmeia, especializado em orientação profissional. “Independentemente do resultado que um teste indica, o jovem precisa de um processo para amadurecer sua escolha.” A ideia de “profissão do futuro” ou mesmo de encontrar um perfil único de atuação para o jovem se tornou anacrônica. A orientação vocacional atualmente leva em conta a afinidade com uma atividade e a possibilidade de múltiplas carreiras compatíveis com o perfil de cada pessoa. “Uma vez que o jovem tem clareza sobre os seus interesses fundamentais, a gente vê quais são as profissões que atendem a isso”, afirma Stella. Outra dica da especialista é lembrar que a graduação não é a única chance que o jovem terá para moldar a carreira aos seus interesses.

Além da orientação profissional, para dar uma dimensão mais real do mercado de trabalho, a Escola Suíço- Brasileira, por exemplo, tem um programa de estágios, no segundo ano do ensino médio.

“O objetivo é despertar os estudantes para as opções que existem. Eles voltam mais maduros”, conta Rogério Jorge, professor responsável pelo programa. Por meio de convênios com empresas como Dow Química, Cia. Aérea Suíça, MTV e Nestlé, os jovens passam um mês dentro das empresas. No ano passado, Daniel França, 17 anos, estagiou na Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha. “Não gostei da rotina do escritório. O interessante para mim na experiência foi desidealizar as profissões”, diz Daniel. Ele pretende prestar vestibular para matemática aplicada, para garantir uma formação sólida, e buscar durante a graduação áreas de atuação de que goste. “Eu adoraria trabalhar em mais de um setor. Meu sonho é ter uma carreira mais flexível”, conta o adolescente. “É difícil, mas é possível.”

Fonte: Isto É

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