A escolha profissional em tempos de incertezas

Empreendedorismo, autogestão, flexibilidade, mobilidade, aprimoramento constante, capacidade de trabalhar em equipe… o rol de competências para o sucesso profissional na atualidade parece infindável! E ainda há quem se iluda de que basta passar no vestibular e tudo estará resolvido! Num mercado de trabalho marcado pela imprevisibilidade, surgimento de novas profissões, contratos e projetos de curto prazo, exigências de especialização e interdisciplinaridade, crer na existência do “homem certo para o lugar certo” não mais procede. Por outro lado, se “navegar é preciso, viver não é preciso”, vale apostar em ferramentas que favoreçam uma navegação menos errante.

Para quem procura terra firme, a investigação costuma ser boa aliada. Responder a questão “quem quero ser?”, em vez de “o que quero fazer?”, pode ser um bom começo, pois exercer uma profissão vai além de preencher uma agenda: trata-se de construir uma identidade e de atribuir um sentido à própria existência.

O empenho em conhecer suas possibilidades, limites, gostos, ideais, princípios e projeto de vida (no qual a profissão é apenas uma parte) torna-se fundamental. É preciso também ir em busca de informação (sobre cursos, profissões, mercado de trabalho) e, sobretudo, exercitar a imaginação antecipando cenários e demandas futuras. E, se tudo muda, cabe aceitar que também podemos nos reinventar a cada momento, o que leva a reconsiderar as crenças nas quais nos apegamos, e por vezes nos acomodamos, vida adentro. “Preciso fazer a escolha certa para a vida toda” é uma delas. Ora, não há escolha errada, há a escolha possível para um determinado momento.

Mas, se lá pelas tantas, a escolha feita se revelar insatisfatória, cabe reverter uma outra crença – a do tempo “perdido”- e aceitar que toda experiência é fonte de aprendizado. A escolha de uma profissão motivada pela garantia de retorno financeiro é outro exemplo de engodo. Ainda que o sucesso profissional esteja atrelado a fatores que ultrapassam o desempenho individual, cada um deverá fazer a sua parte: um lugar no mercado não é dado de saída, é algo que se conquista. Para tanto, muito “amor à causa” será necessário (não por acaso o verbo professar remete também à fé), pois mesmo na profissão dos sonhos os “ossos do ofício” estarão sempre à espreita…

Escolher uma profissão é marcar uma posição frente ao outro e a si mesmo, é escrever a sua história e responsabilizar-se por ela. Se a imprevisibilidade é constitutiva do viver, talvez, o único lugar a buscar alguma permanência seja nos princípios que dão norte e sustentação àquilo que julgamos valoroso em nossas vidas. Afinal, se a profissão escolhida não nos tornar pessoas melhores, para que exercê-la? Portanto, assuma seu leme capitão, e boa viagem!

Luciana Albanese Valore é doutora em psicologia escolar pela USP e coordenadora do serviço de orientação profissional e do Centro de Estudos em Psicologia e Educação da UFPR.

Fonte: Jornal Gazeta do Povo – Caderno Vestibular 24/08/09

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